Kangibrina

O síndico que lia Nietzsche

22 11.2010
Por Denis Zanini Lima [ postado às 8:55 ]

O síndico do meu prédio é um homem muito peculiar.

Desde que assumiu o cargo, há uns dois anos, o cara colocou a casa em ordem.

Saneou as finanças, fixou a equipe de funcionários (antes era um porteiro diferente por semana), resolveu graves problemas infraestruturais e deu um belo tapa no visual do nosso querido mocó.

Mas não é isso que o torna diferenciado.

São os seus famosos comunicados (clique sobre as imagens para ampliá-las).

Além dos clássicos avisos de reunião de condomínio, ele usa os displays dos elevadores para deixar mensagens, digamos, intrigantes.

São textos fortes, polêmicos, profundos, de autores como Nietzsche, Maiakovski, Brecht…

Não sei se todos os moradores compreendem o significado do que o síndico publica.

Mas eu, por ossos do ofício e repertório de vida, tenho a mania de contextualizar e ler tudo nas entrelinhas, por isso saco imediatamente a qual situação o texto se refere.

O de Maiakovski (acima, embora muitos digam que não é obra dele) é sobre um adorável casal, vizinho nosso, que vez ou outra resolve ter uma DR aos berros, com direito à quebra-quebra e, temo, algum dia, à polícia.

De qualquer forma, as mensagens nos elevadores vão muito além da pauta de condomínio.

São temas que vão fundo, questionam a natureza humana, nos fazem refletir e por isso servem de referência para a vida de todos nós.

Elas encurtam o status social entre o porteiro e o morador da cobertura e mostram como somos frágeis e muito mais iguais do que pensamos, principalmente quando colocamos uma lupa em nossas angústias, dilemas, sonhos, medos.