Kangibrina

Aos mestres (mirins), com carinho

09 03.2011
Por Denis Zanini Lima [ postado às 14:48 ]

Os jovens são uma raça bem esquisita, é fato.

Eles acreditam piamente que o Restart é uma banda de rock, que vampiros são bonzinhos e estão em busca do amor eterno e que usar cabelo moicano à la Neymar é legal.

Se parasse por aí, tudo bem.

O problema é que a isso somam-se a irritante mania de não aceitar ordens e questionar tudo, de ficarem uns com os outros antes de terem pelos pubianos, de fazerem tatuagens com a mesma frequência com que respiram e de serem muito melhor do que nós, veteranos do Odissey e Atari, no videogame.

Por outro lado, para o adulto que é curioso, que gosta de ver o mundo sob outras perspectivas, o convívio com essa molecadinha (lógico que não com todos, afinal os babacas são uma praga que existe em todos os lugares e épocas) é bem interessante.

Como disse o filósofo Eric Hoffer, “em tempos de mudanças, os aprendizes herdarão o futuro. Os instruídos estão equipados para viver num mundo que não existe mais”.

Num primeiro momento é difícil de aceitar que essa gente que não amaldiçoou o Paolo Rossi na Copa de 1982, não viu o Cometa Haley (putz, alguém aí viu?) e não prestou homenagens à Onã tendo a Luciana Vendramini como inspiração  tenha alguma coisa a nos ensinar.

Mas tem sim. E não me refiro apenas a configurar o iPhone e baixar filmes no 4share.

Eu tinha grande preconceito em aceitar a idéia de aprender algo com os mais jovens. Mas a partir do momento que passei a exercer cargos de liderança, percebi que escutar quem traz coisas novas de fora pode ser muito útil.

A juventude tem seus próprios códigos e não entendê-los é fechar a porta para um público que tem grandes idéias, um alto poder de decisão e que vai estar no comando do mundo em algumas décadas.

Por isso é preciso estar com a mente aberta a opiniões diferentes, não importa a idade do emissor.

E o que definitivamente me convenceu que data de nascimento não é fator limitante para a transmissão do ensinamento foi quando comecei a praticar kung fu.

No kung fu, há a seguinte regra: quem é mais graduado pratica com os menos experientes para ensiná-los, não importa a idade de ambos.

Isso cria algumas cenas insólitas, como molequinhos que mal saíram das fraldas ensinando marmanjos como eu a golpear.

Tem um moleque de uns 9 anos, o Dan, que me adotou como pupilo. E o pentelho é exigente. Cada movimento errado que faço, levo um pito.

“Você não está fazendo o cavalo direito. Tem que abaixar mais”.

Reclamo, mas sei que ele está certo. Quem sabe mais, ensina. E ele está me ajudando a aumentar meu repertório de conhecimento.

O fato é que essa geração que nasceu a partir da última década do milênio passado, tem uma forma muito peculiar de encarar o mundo, de estabelecer relacionamentos sociais e de processar informações.

Como eles já nasceram com fácil acesso a várias fontes (oficiais e não-oficiais), são muito questionadores e exigentes. Convencê-los de algo e prender sua atenção de forma exclusiva não é fácil, pois estão sempre com a cabeça no modo multitask, com a visão de 360 graus bem aguçada.

Outra coisa interessante é a relação entre afinidade pessoal e trabalho. O conceito sob o qual eu cresci (e sempre lutei fervorosamente contra), de trabalhar para ter dinheiro pra gastar com aquilo que gosto e de achar um emprego estável, não faz muito o gênero dessa turminha.

Ainda bem.

Para eles, o trabalho está inserido dentro de um contexto muito maior, que envolve satisfação pessoal, ser voz ativa na sociedade, compartilhar o conhecimento e estar em constante estado beta.

Ao contrário de outras gerações, a expressão da individualidade é feita sem muito pudor. Quem pensa diferente pode até ser repudiado por uma maioria, mas o “dissidente” sempre encontra, nem que seja no meio digital, a sua tribo.

A distinção entre vida pessoal e profissional me parece que serão minimizadas quando essa geração chegar ao poder. Tudo pode ser trabalho e tudo pode ser lazer. A diferença é que em uma delas você será remunerado.

Aliás, muito me surpreende o espírito empreendedor dessa turma. Estão sempre criando, pensando em formas diferentes de fazer as coisas, superando desafios.

Lógico que, como cada geração, ela apresenta seus defeitos. A forma instântanea como tudo é consumido e descartado e o desuso do cérebro para arquivar e cruzar informações trarão consequências sim.

Impossível dizer agora qual a relevância e impacto disso.

Mas de qualquer forma, tenho certeza, eles sobreviverão.

E nos guiarão para o futuro, que, garanto, será bem melhor do que o nosso presente.

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