Kangibrina

Capitão Nascimento vai à Dinamarca

08 03.2009
Por Denis Zanini Lima [ postado às 15:37 ]

“Não sou louco; estou louco, mas por astúcia” – Hamlet

Há uns dois sábados, no Teatro da Faap, em São Paulo, vi a penúltima apresentação de Hamlet, estrelado por Wagner Moura.

Boa peça.

Além do elenco e do texto – já conhecido e declamado por Deus e todo mundo e que portanto dispensa comentários – gostei muito das soluções cênicas.

A presença de todos os atores simultâneamente no palco e o figurino simples – mas emblemático – deu grande dinamismo à obra.

O uso de um telão para pegar closes de personagens em situações-chave também contribuiu para isso.

Wagner mandou bem no papel do protagonista. Conseguiu emanar com competência a angústia, o desejo de vingança, a inteligência psicótica e a cólera que o personagem requer.

Mas algo soava estranho em sua interpretação.

Em diversos momentos, principalmente nos de fúria, fiquei com a nítida sensação que o filho do rei da Dinamarca tinha um quê demasiado de Capitão Nascimento.

Mas podia ser só impressão.

Ontem, zapeando madrugada a fora, eis que me deparei com Tropa de Elite, o filme.

E aí a dúvida se dirimiu.

Sim. O capitão do Bope estava aquela noite lá, no palco. Só que ao invés da farda, a armadura; no lugar da escopeta, a espada e, substituindo Baiano como alvo de sua ira, tio Cláudio.

Wagner é um bom ator, um dos mais talentosos de sua geração, ao lado de Matheus Nachtergaele, João Miguel e Selton Mello. Mas precisa urgentemente ampliar seu repertório, apostar em papéis diferenciados e estudar mais posturas e entonações.

Ele não merece ficar estigmatizado por um personagem. O Capitão Nascimento precisa ser exorcisado para não virar um encosto.

Wagner tem que se dedicar mais. Acredito que as carreiras paralelas de músico e de fotógrafo estejam tirando seu foco.

Espero que ele encontre novamente o caminho e se concentre exclusivamente como ator. Caso contrário a caveira do Bope – e não de Yorick – irá assombrá-lo pelo resto de sua carreira.